Textos dos Alunos

Pela honra que tenho de te ter encontrado na vida… Rodrigo Murteira, um aluno inesquecível! E, não estou a mentir!!!

Eu tenho 44 anos !

Antes de tudo quero desde já pedir desculpa pelo pernicioso título e que pode induzir em erro, o leitor deste notável texto por mim escrito. Na verdade, quem me conhece, sabe que eu não tenho quarenta e quatro anos coisíssima nenhuma, mas como seria previsível, sessenta e dois.

E só agora admito, porque não é nada fácil percebermos que estamos a caminho dos cem e ainda há gente que diga que eu não tenho mais do que dezoito. Como se não percebessem a fragilidade dos meus cabelos grisalhos, desta pele gasta que trago no meu corpo, destes olhos caídos e metidos para dentro. Menti e peço desculpa por isso, mas teria sido muito pior se em vez de me ter feito passar por mais novo, como foi o caso, me tivesse feito passar por mais velho, com uns bons cem anos aos quais pudesse associar todo o tipo de comemorações e frases feitas: Cem anos de glória. Um século sem parar.

Mas pronto optei pelos quarenta e quatro e não se fala mais nisto. O que é importante que se fale é, precisamente, deste texto como se tivessem acabado de ler uma obra notável – leia-se uma obra de Ines Muller – que tenha, de algum modo, mudado a vossa vida, mas sobretudo, o percurso da filosofia mundial. Devem pois usar todo o chorrilho de mentiras que estiver ao vosso alcance e não devem poupar na imaginação. Algo como: Lembras-te do professor Orlando que mal podia andar? Pois sabes o que aconteceu? Quando leu este texto, sentiu-se de tal modo rejuvenescido que agora está prestes a bater o recorde dos cem metros de barreiras. Ou melhor ainda: O Nietzsche é muito bom, escreve muito bem, mas este Murteira é assombroso, nunca tinha lido nada assim desde o “Manual de Instruções para a Bimby” de 2005. E assim, as pessoas começarão a falar dos efeitos terapêuticos deste estupendo texto e começarei a dar palestras por todo o mundo com boas frases de auto-ajuda: Acredite em si. Em si está a cura. O amor está dentro de nós.

Como viu, mentir é algo interessante, atrevo-me a dizer, extremamente agradável. E é isso que vou defender ou elogiar….A mentira!

Impressionada?

Pois bem, se a surfista/agricultora mor me permite, vou arregaçar as mangas. Agora, “sit down and relax” e tente acompanhar o meu ritmo alucinante!

Actualmente, a mentira chama-se utilitarismo, ordem social, senso comum; disfarçou-se nestes nomes e esta máscara deu-lhe prestígio, tornando-a misteriosa e portanto respeitada. De forma que a mentira, como ordem social, pode praticar livremente todos os homicídios; como utilitarismo, todos os roubos; como senso comum, todas as burrices e loucuras.

A mentira reina sobre o mundo! Quase todos os homens são escravos desta omnipotente Majestade. É uma qualidade universal. É essencial para a humanidade.

Mas ainda há dúvidas?

Nós mentimos para proteger o nosso prazer, ou a nossa honra se a divulgação do prazer for contrária à honra. Mentimos ao longo de toda a nossa vida, até, e sobretudo, e talvez apenas, àqueles que nos amam. Só estes, com efeito, é que nos fazem temer pelo nosso prazer e desejar a sua estima. E o que é que fazemos para a receber? Dizemos a verdade? Por amor de Deus. Mentimos como é óbvio. E é bom!

A mentira é muito mais interessante que a verdade. O espírito do homem é feito de maneira que lhe agrada muito mais a mentira do que a verdade. Um exemplo: estamos a ter uma aula de filosofia. Se a stora trata de assuntos sérios, o auditório adormece, boceja e cansa-se, mas se, de repente, a stora, como aliás é frequente, começa a contar uma história que não tem nada a ver, toda a gente desperta e presta a maior das atenções.

Não sei como dizê-lo, mas a verdade é uma luz nua e crua que não mostra as máscaras, e os cortejos do mundo com metade do brio e da graciosidade com que aparecem iluminados pelos candeeiros. A verdade pode, talvez, atingir o preço da pérola que mais brilha durante o dia, mas não alcança o preço do diamante que tanto mais brilha quanto mais variadas forem as luzes. Com a mistura da mentira mais se acresce o prazer. Haverá alguém para duvidar que, tirando ao espírito humano as opiniões próprias, as esperanças agradáveis, as imaginações pessoais, etc., para a maior parte da gente tudo não seria senão uma espécie de pobres coisas contraídas, cheias de melancolia e de indisposição, enfim, desagradáveis?

Gosto da verdade. Acredito que a humanidade precisa dela; mas precisa ainda mais da mentira que a lisonjeia, a consola, lhe dá esperanças infinitas. Sem a mentira, a humanidade morreria de desespero e de tédio. E estou-me a lembrar dos políticos, “Trabalho, Seriedade e Dedicação” e dos homens que vendem as bolas de Berlim na praia, “Olha a bolinha de Berlim…Alimenta mas não engorda!”. Como Ibsen disse “prive o homem comum da sua mentira vital e ter-lhe-á roubado a felicidade”.

A mentira é das únicas coisas no mundo que nos pode abrir perspectivas sobre algo de novo, de desconhecido, que pode abrir em nós sentidos adormecidos para a contemplação do universo que, sem ela, nunca teríamos conhecido.

A mentira é uma armadura com a qual o homem, muitas vezes, sobrevive aos acontecimentos que, sem essa armadura, o aniquilariam e esta armadura é como que segregada pelo homem para prevenir uma situação de perigo (o orgulho, perante a humilhação, por exemplo). Persiste na alma uma espécie de fagocitose; tudo o que é ameaçado pelo tempo, para não morrer, segrega a mentira.

A mentira, em suma, é a recriação de uma verdade, ou melhor, a verdade são formas várias da recriação de uma mentira. O mentiroso cria ou recria. O mentiroso deturpa. A mentira é, assim, um dos pilares da civilização moderna e, consequentemente, do progresso humano.

 

Como se costuma dizer, Quem conta um conto, acrescenta um ponto.

 

 

 

 

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49 Responses to Textos dos Alunos

  1. Filosofia – Cada pessoa tem a sua filosofia de vida, mas para mim é maneira de tentar superar todos os obstáculos e barreiras que vão surgindo ao longo do tempo da melhor maneira. E é também para além disso tudo, tentar ver o que se vê. Porque se fechar-mos os olhos vamos ter a consciência que grande parte do que vivemos é uma mentira.

  2. ALGO QUE QUESTIONO A MIM MESMO:
    Um lápis vem da madeira, assim como o bebe vem da sua mãe, uma folha de papel vem de uma arvore, resumindo, tudo o que é vem de algo.
    Podemos imaginar uma linha reta, linha sem curvatura ou sinuosidade, sem espessura e de comprimento infinito. no centro da reta está o numero 0, para a esquerda o infinito negativo, e para a direita o infinito positivo. será possível relacionar, o numero 0 a tudo o que existe no momento, o infinito negativo a tudo o que ja existiu e que por sua vez criou algo, e o infinito positivo a algo que esta por ser criado ? ou seja a existência ser uma linha reta cujo o que sabemos, ou julgamos saber, é so um segmento da sua infinidade?
    Se a resposta for um sim, então implicará que nada exista, pois se tudo o que existe, e existiu, teve algo que o criasse então é correto dizer que não ha um inicio, pois seria necessário um inicio do inicio, e um inicio do inicio do inicio, e “pelo negativo infinito fora”.
    Sendo assim, será que a procura de uma resposta para a existência vale a pena? ou será que temos de questionar o que é isto que não existe?
    obrigado!

    • So um acréscimo:
      Se tivermos a tal linha reta da existencia numa outra perspectiva, de modo a que se torne um ponto, ou seja começa e acaba exatamente no momento, mais uma vez pode-se concluir nunca existiu.
      Segundo esta teoria, será que isto que vemos, presenciamos, e vivemos, mas que não existe, é so uma questão de perspectiva?

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