“Viver das aparências” – Rita Henriques

Tese de Filosofia

“Defender o Indefensável”

Viver das Aparências

 

“O meu nome tem origem no Latim, vem de APPARENTIA, de APPARERE, que significa surgir, aparecer, mostrar-se, apresentar-se, fazer-se visível. Segundo o dicionário da língua portuguesa, sou o aspecto ou aquilo que se mostra superficialmente ou à primeira vista. Mas no fundo sou a armadura que protege a personalidade da selva a que muitos chamam Terra. Sou a aparência.”

Para um mundo que julga, distingue, que diferencia em função de determinados modelos de comportamento, e até de aspecto exterior, nada mais lógico que nos entregarmos de corpo e alma ao conceito: viver das aparências.

Hoje em dia a vida acaba por ser uma busca sedenta por sucesso. E, por isso, há que manter uma certa aparência, um véu que separa o “mundo de feras” do verdadeiro “eu”. Senão não sobreviveria ninguém a constantes atentados e julgamentos por parte do outro.

Porquê mostrar o que és, se podes mostrar aquilo que querem que sejas? Afinal de contas, para quê tentar escapar de estereótipos aos quais facilmente te adaptas? Da religião à moda, das amizades às festas, da família à educação é-se vítima de certos padrões impostos pela sociedade e em vez de tentar vencê-los, ou de tentar enfrentá-los, deve ser feita uma adaptação ao habitat em que se reside de forma a sobreviver com sucesso. Vestires certas marcas, relacionares-te com aquelas pessoas, estar naquelas festas, ir à igreja, tirar boas notas, no fundo, apresentares ao mundo o verdadeiro sonho de personalidade é como se estivesses protegido de qualquer predador: não há pontos fracos evidentes. Funciona como camuflagem.

Viver das aparências assemelha-se a viver coberto por um manto de invisibilidade, ocultam-se fragilidades e características do “eu”. Sobreviver é o objectivo, é o pote recheado de lingotes de ouro no final do arco-íris. Sim, porque a seguir à tempestade que é esconder ambições, gostos e ideias, vem a bonança, denominada por muitos de “sucesso” e “felicidade”.

Como dissera outrora o príncipe de Marcillac, François de la Rochefoucauld “O mundo recompensa com mais frequência as aparências do mérito do que mérito em si.” Os que vencem são aqueles que iludem o mundo. Funcionam quase como artistas da arte barroca: tal como o pintor usa a obra para atrair os que a contemplam através de riqueza e forte sedução, o individuo utiliza a sua imagem. Uma boa aparência é uma mais valia, e os que se deparam com ela sentem-se tentados a ser iguais.

É claro que exige esforço guardar a essência do ser, opiniões e crenças. Mas limitar o pensamento de forma a reflectir de forma semelhante ao outro acaba por simplificar a estadia nesta realidade surreal. É mais fácil vestir uma pele que não a nossa, mas que seja bem aceite pela sociedade.

Se está enraizada a nível global uma sociedade que tende a moldar e esbater a individualidade, porquê lutar contra a maré? Viver das aparências é engenhoca quase certa para atingir sucesso, é fornecido aos olhos dos outros a imagem desejada e saímos ilesos num confronto corpo-a-corpo com o mundo doido em que habitamos.

O importante é aparentar uma vida cheia de cores e sabores. Já dizia Maquiavel “Todos vêem o que pareces e poucos o que és”, mais não podia ter dito o historiador, porque o que verdadeiramente é valorizado corresponde à nossa imagem e à mensagem que transmitimos através do nosso aspecto, atitudes e estilo de vida. E como consequência, muitas vezes surgem oportunidades que de outra forma nunca iriam surgir.

“A minha existência começava a espantar-me seriamente. Não seria eu uma simples aparência?” Friedrich Nietzsche

Rita Henriques

11ºC, nº15

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2 Responses to “Viver das aparências” – Rita Henriques

  1. Muito, muito, bom! Parabéns Rita! Belo exercício de sofistica ;) De qualquer maneira parece-me que o que defendes, é bastante defensável e foi bem defendido! Beijinhos, Vera Serra Lopes.

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